sábado, 5 de fevereiro de 2011

A Saga da Fênix

Paulo Rogério B. Rocco


Para os iniciados em histórias em quadrinhos, o título deste artigo remete a uma das muitas obras-prima assinadas por Chris Claremont dentro do universo dos X-Men.

Já para os que conhecem um pouco da mitologia grega, Fênix é um pássaro que, quando morria, entrava em autocombustão para depois renascer das próprias cinzas.

E como também sei que não são todas as pessoas que tem conhecimento ou interesse em assuntos culturais, devo explicar que estaremos falando aqui, metaforicamente, do nosso Museu Histórico.

Quando digo “nosso”, não estou me referindo à Associação Cultural Quintal das Artes – da qual sou Presidente e que está como responsável pela gestão do Museu. O museu é nosso, dos tambauenses.

A história dele teve início em 25 de Junho de 1985, quando a Lei nº 1.066, assinada pelo então prefeito Dirceu Cerquetani, criou o Museu Histórico de Tambaú.

O idealizador do espaço foi o historiador José Eli Costa, Diretor Municipal de Cultura na época e hoje sócio da Quintal das Artes.

O acervo foi instalado no porão da casa que pertenceu ao ex-prefeito José Gatto e que passou a abrigar, na parte de cima, a Biblioteca “Prof. Sebas”, que posteriormente passou para a Rua Santo Antonio e hoje está também em prédio próprio e definitivo.

O local não era o ideal para abrigar a coleção do museu, mas estava muito bem montado, com o acervo preservado e, o mais importante, aberto à visitação pública.

Tempos depois, graças ao descaso de alguns e à indiferença geral (com as raras e honrosas exceções de sempre), o espaço foi sendo abandonado em todos os aspectos.

José Eli não estava mais à frente da Diretoria de Cultura, mesmo assim, dentro do possível, passou a resgatar objetos e documentos que necessitavam de preservação e conservação urgentes.

Em 22 de Março de 2005, três meses após assumir a prefeitura, Antonio Agassi decretou que estavam suspensas, temporariamente, as atividades do Museu Histórico de Tambaú. As razões que levaram a isso: as péssimas condições em que se encontrava o local, a deterioração quase total do acervo e o início das buscas para que a Fênix renascesse com todo seu esplendor.

Devido às idéias empreendedoras do prefeito, o Setor de Educação, que até então ocupava a casa número um da Praça Carlos Gomes, passou para a nova sede construída na APA, “liberando” o imóvel já adquirido pela municipalidade.

Em 15 de Maio de 2007, enquanto vereador, fui o autor da Indicação nº 91/2007 onde solicitava ao Prefeito que, assim que o Departamento de Educação fosse transferido para o pólo cultural e educacional da APA, o imóvel ficasse sob responsabilidade do Setor Municipal de Cultural, para a permanente instalação do Museu Histórico, então chamado “Zélia Maria de Carvalho Biela”.

O pedido foi atendido pelo prefeito e referendado pelo Conselho Municipal de Educação.

Em Fevereiro de 2008, José Eli elaborou um projeto denominado “Aquilo que a Memória Ama, torna-se Eterno”. Foi a primeira tentativa de renascimento do Museu nesta nova era política e administrativa.

Antonio Agassi, no dia 15 do mesmo mês, encaminhou o projeto ao Presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, solicitando uma verba de 107 mil reais para a reforma do Museu. Infelizmente, a verba não foi conseguida.

Em Julho de 2008, elaborei um Projeto de Lei na Câmara que transferiu o nome de Zélia Maria de Carvalho Biela – após anuência de seus filhos – para o recém-inaugurado centro de convenções na APA, local mais adequado a receber o nome da grande educadora.

Em seguida, outro Projeto de Lei, também de minha autoria, denominou a nova “Casa de Cultura e Museu Histórico Ernesto Ricciardi”, uma homenagem a um dos maiores artistas de Tambaú e que, tinha em seu nome, apenas o centro “cultural” que nem mais era usado com essa finalidade.

Nos primeiros meses de 2009, enquanto fiquei responsável pelo Setor de Cultura, durante quatro meses, adaptei junto com o José Eli, o projeto enviado ao IPHAN e o encaminhamos ao Ministério da Cultura, respondendo ao Edital “Mais Museu”, tentando obter verbas para a reforma.

Como teoricamente já tínhamos um museu e o edital era para cidades que não possuíam um, não conseguimos sucesso no âmbito federal mais uma vez.

Em 02 de Maio de 2009, através do Decreto nº 1.920, o Prefeito efetuou o tombamento do imóvel. A solicitação foi feita por mim no Legislativo, sendo acatada e aprovada pelo CONDEPHAC – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do município.

Ainda naqueles meses, estivemos em São Paulo, junto com o Prefeito Antonio Agassi, em uma audiência com o então Secretário de Estado da Cultura, João Sayad, levando pessoalmente um pedido de reforma do museu e um projeto, que adequamos à esfera estadual.

O pedido foi atendido e o convênio, no valor de 61.584 reais, foi assinado em 28 de Dezembro do mesmo ano, quando eu não estava mais trabalhando na Prefeitura, ficando mais uma vez o José Eli – mesmo sendo Coordenador de Assistência Social – como responsável pela continuação da saga.

Através de licitação, foi contratada a Construtora Celestino, que por sua vez contratou o artista tambauense Luiz Antonio Dias, para reproduzir a pintura original de afrescos que havia em todas as salas, em um belíssimo trabalho.

O projeto previa ainda a colocação de trilhos eletrificados e lâmpadas especiais para as salas e a instalação de câmeras de vigilância, também em todos os cômodos.

Em Maio de 2010, a Prefeitura Municipal, em um empreendimento pioneiro e que hoje serve de exemplo em todas as cidades da região, terceirizou para a Associação Cultural Quintal das Artes a gestão do Museu Histórico – bem como da Biblioteca e da Escola de Teatro, além de outras ações da área.

A Associação passou então, através do convênio assinado com a Prefeitura, a recuperar, item por item, o grande acervo cultural e artístico do museu, ao mesmo tempo em que as obras do imóvel seguiam adiantadas.

Hoje quase todo o acervo está recuperado e aguardando a montagem das salas que começam nesta semana. A construtora terminou os serviços para os quais foi contratada. A prefeitura está próxima de terminar a pintura externa do prédio e a Quintal das Artes está terminando as instalações elétricas e a colocação dos novos móveis para exposição, já adquiridos na metade do ano passado.

Quando colocamos no nosso Plano de Trabalho a administração e manutenção do Museu Histórico, o fizemos reconhecendo o trabalho incansável do José Eli desde a criação do mesmo e, sobretudo, a necessidade de se perpetuar a história de uma cidade e de seus personagens, em uma época em que qualquer um escreve o que quer, fala o que lhe passa pela cabeça e, mesmo sem embasamento histórico, aquilo se torna a “verdade”.

A Cerâmica Atlas, através do seu Presidente, Geraldo José Aloise Ricciardi, irá doar ao Museu Histórico um elevador para portadores de necessidades especiais, bem como doou todas as tintas para a pintura externa.

As obras estão próximas de chegarem a um fim. A calçada deve ganhar novo piso nos próximos dias e a história de Tambaú ganha definitivamente, sua casa.

Agradeço à Diretoria da Quintal das Artes e aos nossos funcionários pelo incondicional apoio, ao Prefeito Antonio Agassi e à vice Maria Aparecida Morandim por acreditarem e continuarem acreditando no nosso trabalho, ao departamento financeiro da prefeitura que honra precisamente o repasse firmado no convênio e à todas as pessoas que estão elogiando, visitando e até criticando o novo Museu Histórico.

Penso que é válido quando um departamento público – principalmente quando é direcionado para a cultura ou educação – passa ser notado, como é o caso do “novo” prédio do museu, já que, em uma época não muito distante, quando ele estava feio, deteriorado e quase abandonado; passava despercebido – tanto por intelectuais, quanto por pessoas que não tiveram a chance de aprofundar seus estudos – como acontece, com fatos importantes esquecidos nas paredes da nossa memória.

A saga não terminou. Ela estará aberta para todo o sempre, quando cada olhar, de cada visitante, passar pelas obras, pelas fotos e pelos fatos que transformaram esta cidade na maneira como ela é hoje. E continua transformando.

A Fênix está em chamas.

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